segunda-feira, 11 de julho de 2011

O Rio-da-Escolha

Estou no meio daquele momento em que a gente fica à margem de um rio – um daqueles rios importantes que se defrontam à frente da estrada da Vida. Fico observando, não a margem oposta, mas a extensão do rio, onde os objetos são arrastados pelas correntezas, os mais diversos objetos: fragmentos de lembranças, pessoas, lugares e etc. Ali, fico assistindo com que força elas são levados pelas águas, para que eu possa tomar uma decisão: de saltar ou ficar onde estou.
Indeciso? Não, analítico; ou seja, fazendo a leitura do esforço a que terei que me expor para atravessar esse rio chamado Escolha.  
Lá do outro lado, há alguém acenando; contudo o Rio-da-Escolha tem largura suficiente para que a pessoa da margem oposta fique pequena de modo que não se a reconheça ao certo ou a ouça bem, devido o barulho das águas... Daí, você dizer e dizer, mas eu não ouvir, mas eu não acreditar, quando você insiste que gosta de mim, que eu sou bonito, especial, maravilhoso e etc...
Talvez, eu lance um bote. Talvez, eu vista um colete. Talvez monte uma tirolesa. Não sei! Algo tem que acontecer, para que eu me mova do estado analítico e tome um passo adiante à água fria de inverno em direção ao Rio-da-Escolha.


Eu sei que você tem força, coragem e técnica e, talvez também tenha um barco para atravessar o Rio e vir me encontrar. Até já me disse, demonstrou, que sim. Mas, o Rio só existe do meu lado.
Se você olhar do seu lado para o meu, não verá um rio, verá uma janela aberta, e, através dela, um campo florido; por entre ele, uma estrada cheia de girassóis abertos, apontando para mim ao seu término. Essa é sua Estrada-da-Fantasia. Onde, quem está aos pés dela, lá no finalzinho, é um ser esbelto, de cabelos finos, de olhos castanhos claros, de lábios finos, de alma quieta, de visão estreita – no momento – de coragem pequena, e de mistérios enormes, de alma encolhida e fechada para balanço que, ao olhar para direção da sua Estrada-de-Girassóis, vê um Rio, o qual o denomina, O Rio-da-Escolha.
Estes dois pontos de vistas dúbios, porém, idênticos para a mesma situação, fazem de nós duas criaturas especiais nessa cidade de tantos outros.
Assim, a Vida está tentando unir, por uma ponte, uma estrada cheia de flores lindas e delicadas um Rio cheio de correntezas e objetos perigosos, que passam por ele.
Não sei se me lançarei nas águas frias e rápidas desse Rio, da mesma forma que você possa se sentir atraída e encantada pela cor e perfume dos girassóis e vir em minha direção, ou se esperaremos a Vida construir a ponte entre nós. Mas, certamente, eu precisarei de sua mão, do seu pé e de seu coração.
 Ao me ver dormir, pense: se ele acordar, que venha pela estrada dos meus girassóis!

sábado, 9 de julho de 2011

Minha Verdade

Manhã:
Se eu pudesse, ficaria ao teu lado agora!
Bem agora, pois de todas as pessoas, você é única tem que o poder de me aquietar.
Hoje, estranhamente, e muito estranhamente, estive quieto desde manhã, desde que o sol acordou, acordando tudo que acorda junto com ele: os bons e os maus, os enfermos e os sãos, os bandidos e os mocinhos, os fiéis e os infiéis, as putas e as samaritanas.
Sim, concordo, deveria ter ficado em casa como as domésticas, ter ficado na prisão como os presidiários, ter ficado na floresta como os índios, ter ficado no mar feitos os tubarões e ter ficado no ar feito o oxigênio. Ter estado essa madrugada junto a você.

Madrugada:
Se eu pudesse, ficaria ao teu lado agora. Bem agora, pois de todas as pessoas, você é das poucas que tem o poder de me inquietar.
Hoje, estranhamente, e muito estranhamente, estive inquieto desde a madrugada, desde que o sol não acordou, não acordando tudo que acorda junto com ele: os bons e os maus, os enfermos e os sãos, os bandidos e os mocinhos, os fiéis e os infiéis, as putas e as samaritanas.
É sim, deveria ter saído de casa como os operários, ter fugido da prisão como os condenados,  ter saído da floresta como as abelhas, ter saído do mar como cristais de sal e saído do ar como raios de sol. Ter vivido o dia junto a você!

Desapego

Posso ter seu dia, ser tua luz e tua fatia
Posso ser tua paz, ser tua alegria e teu rapaz
Posso ser teus cais, ser tua estrada, tua estadia
Posso ser teu vento, ser tua noite e teu firmamento
Posso ser tua ponte, ser teu monte, tua travessia
Posso ter tua nuvem, ser tua chuva e tua ventania
Por ser teu norte, teu passaporte e teu avião
Posso ser tua canção, ser tua vitrola e teu violão
Posso ser tua mania, ser tua culpa e tua fantasia
Posso ser teu rosário, ser teu pecado e teu santuário
Por ser de ninguém, ser meu e teu também!

Trivial

Não. Não sou poeta,
sou cacólogo!
Na verdade, um calo na Poesia.
Minhas rimas são rimas, pois falam sozinhas.
Se as escrevo, é porque as conheço da arte de rimar.
Minhas poesias são gaguejos, relinchos, estreptococos enfileirados
um a um, na linha rascunhada, doentia do meu espírito plagiador.
Não sou poeta, sou criador de rimas, escravo do verbo,
patético cantor do verbo.
Se conheço os sujeitos, desconheço seus nomes.
E o tempo não tem concordância, pois é na dissonância que ganho meu enredo
Rimo amar com sofrer
E em todas as operações matemáticas...
Não, não sou poeta... Já disse!
Sou cacólogo.
Será a ilusão quem me faz sonhar?
Ou será o sonho
Que não me deixa escrever?
 
 

Paixões Fundamentais

Amo o ser humano
Por sua natureza imprópria
Por sua timidez insólita
Por sua magia incutida

Por sua célula
Sua química
Sua causa
Sua tara
Sua possessão

E sua mania
Sua dívida
E sua mesquinharia
Sua beleza
E seu tango

Ah amo...
Amo tudo que amo
Exceto no que reclamo
As paixões fundamentais
Sem mais!